Carreira x Emprego: qual você se preocupa mais?

Tempo de leitura: 13 minutos

Carreira ou emprego? Quando você pensa em sua vida profissional, se preocupa mais como o seu emprego ou com a sua carreira? Talvez, você me responda que se preocupa com ambos. Acho justo que você possa pensar assim.

Contudo, quem lê regularmente o material da “Gestor de Si’, por reiteradas vezes, percebeu que nessa mesma sociedade, a linearidade da carreira é algo remoto. E os empregos estão desaparecendo em um ritmo impressionante.

De décadas em décadas, milhões deles pelo mundo desaparecem, sem deixar ‘vestígios’. Ora pelo avanço tecnológico, ora pela inovação, ora pelas fusões e aquisições ou ainda pela mudança de métodos e modelos de gestão.

Pode-se inclusive afirmar que as transformações e evoluções alcançaram quase todas as carreiras, se não todas. Mas, também é bem verdade que estão sobrando poucos empregos, ditos tradicionais. Você deve estar se perguntando: mas, isso não é novidade? Então, te convido a continuar lendo esse artigo.

Contudo, eu particularmente chamo a sua atenção para ‘largar’ seu emprego e centrar toda a sua energia na construção e evolução da sua carreira. Antes que você possa pensar que eu estou dizendo para você ‘dar um chute’ no seu emprego, abandonar tudo e ir embora, me antecipo e digo que não.

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Não se trata disso de forma alguma. Mas, quero dizer que na sociedade contemporânea é muito difícil ser uma pessoa dona do seu emprego, muito mais fácil e apropriado ser uma pessoa dona da sua carreira.

Sei que não estou contando nenhuma novidade, apenas voltando ao tema. Carreira é um processo constante de construção e reconstrução consigo mesmo. Sua carreira é autodesenvolvimento.

Seu emprego quem verdadeiramente é o ‘dono’ é o seu empregador (ou, seja, a empresa em que você trabalha). E, ela pode reivindicá-lo a qualquer momento, sem ‘aviso prévio’.

Logo, não perca a chance de estabelecer um novo patamar para você avaliar sua carreira agora. Achou interessante? Então vamos ao cerne desse texto. Você certamente terá dicas valiosas para entender um pouco mais sobre o que é autodesenvolvimento. Mãos-a-obra!!!

INTRODUÇÃO

Carreira x Emprego: qual você se preocupa mais?

É natural que a maioria das pessoas quando pense em trabalho, pense imediatamente em um emprego. No Brasil, isso é ainda mais latente, visto que, a maioria ‘sonha’ com um emprego público.

Pensa, prioritariamente na estabilidade. Então, é aceitável que possam pensar desta forma. Por muito tempo isso permeia o nosso universo profissional. Mas, no atual cenário, empregos estão cada dia mais distante do mundo de muitas pessoas.

Você pode estar se perguntando agora: então qual a saída? Os estudos apontam que faltará o emprego da forma como nós o conhecemos hoje, mas não faltará trabalho. Sob essa ótica, então necessitamos mudar nosso modelo mental. Isso mesmo, pensar muito mais na sua carreira do que no seu emprego.

Sennett (2015) registra que a lealdade a empresa é uma armadilha perigosíssima, pois, os funcionários não podem contar com a empresa, são negociáveis. Eles servem a propósito de resultados financeiros.

Aqui para reforçar, o pensamento de Sennett, tomo, como exemplos, dois casos recentes no Brasil com grandes repercussões. No primeiro, uma petrolífera envolvida em um escândalo de corrupção, demitiu quase 170 mil pessoas em dois anos.

Enquanto que no segundo caso, uma operadora de telefonia do Brasil, demitiu 2 mil funcionários em 2016. A grande pergunta: o que esses funcionários fizeram de errado? Nada, ou provavelmente nada, apenas quem estava no comando tomou decisões erradas que causaram essas demissões.

Nessas circunstâncias, as demissões são sempre apresentadas como uma ‘fatalidade’.

Cabe salientar, que esses funcionários podem ser competentes ou não, mas não foi esse o motivo da maioria dessas demissões. Nesta configuração, eles deixaram de ser o ‘maior ativo dessas empresas’.

Veja, mesmo toda a capacidade não os impediu de perderem seus empregos. E, todos nós sabemos que esses dois exemplos são uma ‘gota’ em oceano, ou seja, ainda muitos e muitos viverão tal situação. Logo, tais práticas reforçam a minha teoria exposta nesse artigo.

Nessa dinâmica, empregos e carreiras tradicionais são raros, a vida profissional começará depois e terminará antes; sendo que a educação terá de ser mais prolongada e talvez indefinidamente.

Essa condição nos ‘força’ a fomentar o desenvolvimento de novos conhecimentos. Ter um elevado senso de competência e de influência sobre o meio em que se encontra é um desejo de muitos. Mas, vamos partir para a construção dessa dinâmica.

EMPRESAS: USE COM MODERAÇÃO

Carreira x Emprego: qual você se preocupa mais?

Nessa conjuntura, a sociedade organizacional vem-se tornando progressivamente mais ‘predatória’. Construída a partir de um monólogo da excelência performática que ‘coage e seduz’ o indivíduo a remodelar seus atributos pessoais e profissionais cotidianamente.

Viver o ‘mundo das empresas’ significa se doar intensamente, em na maioria das vezes, muito além do horário normal de trabalho. Certamente, você sabe muito bem do que eu estou escrevendo agora. E, constantemente você é mais um exemplo disso.

Conquanto, faz-se necessário desvelar alguns pontos relevantes do ‘Lado B’ das organizações, tais como o esgarçamento generalizado do tempo (muito além das ditas 8 horas diárias), o esfacelamento da vida pessoal (ausências em jantares da família, não ver os filhos crescer, etc), a desmontagem do privado (viver uma ‘mistura’ plena da vida pessoal com a vida profissional), o sofrimento e a cisão do sujeito (níveis de estresse cada dia maiores, crises de ansiedade constantes), a excrescência dos domínios (chefe ditadores, psicopatas), a representação de figuras metonímicas (a empresa cidadã, a empresa protetora), dentre outros. Isso quer dizer que todas são assim, não. Contudo, a maioria só alterna a intensidade da ‘dose aplicada’.

Valendo-se da necessidade de sobrevivência, sob o disfarce de dar autonomia aos indivíduos, essa organização inflige promover neoautoritarismo o qual é, potencialmente, mais insidioso e sinistro do que seu predecessor burocrático, conquanto, deve-se considerar que todo indivíduo é com efeito originário de determinado lugar (Chanlat, 2007).

Como espaço do humano, a organização deve também ser entendida como um palco complexo, uma arena onde os indivíduos perseguem interesses diversos e distintos, já que a realidade subjetiva não é um vazio de objetos.

Nessa condição, a empresa é seu ‘viveiro’. Então, é claro, há uma peculiaridade completiva a esse constructo para apreender e gerar identidade ao carisma institucional, dentre os quais, pode-se citar:

  1. A organização utiliza um discurso em que se pretende onipresente e perfeita (veja os sites dessas empresas, elas se ‘vedem’ como o melhor lugar do mundo para trabalhar);
  2. Constrói-se uma confiança de que a ela é capaz de despertar em seus atores uma imagem grandiosa e perene (trabalham incessantemente para cativar seus funcionários – isso, mesmo, esqueça o discurso do ‘colaborador’ – a dedicarem cada dia mais e mais);
  3. O sucesso é uma constante, podendo ser atestado em suas grandes conquistas e nos lances extraordinários que a mantem sempre atual e jovem (ela se faz como a melhor das melhores – um lugar único);
  4. A capacidade de seduzir utilizando um discurso de caráter emocional capaz de despertar um fervor e uma lealdade dominadora;
  5. Um discurso de catequese para sustentar a relação de forte lealdade e proteção;
  6. A estruturação de um ambiente social com ênfase em uma grande família (você já deve ter ouvido essa);
  7. Um discurso que faça seus atores se sentirem imbuídos de uma missão espetacular e única;
  8. A estratégia implica um discurso totalizante para mobilizar os esforços dos atores encantando seus corações e seduzindo-os na sua consecução; e
  9. Um discurso que coloca seus atores no centro para a construção de uma imagem grandiosa para uma associação positiva.

Nesse ‘teatro’ organizacional, há uma tendência de se valorizar quem sacrifica horas em prol da sua empresa, mesmo que isso a longo prazo cause um mal maior, para ambos ou para os indivíduos.

Trabalhar sob pressão o tempo todo é considerado normal e totalmente aceitável para a maioria dos indivíduos. A preocupação excessiva de controlar tudo nas organizações disfarça a compulsividade e a idealização existente, que impossibilita perceber o indivíduo como um todo. Existe sim vida fora da empresa.

Você pode ter achado esse tópico um pouco pesado, e inclusive até ter discordado e muito dele. Claro que as empresas têm um lado positivo, e nem quero negá-lo.

Afinal, esse lado é constantemente mostrado por elas, geram empregos, contribuem para a melhoria dos padrões de qualidade, desenvolvem pesquisas e produtos que melhoram as vidas. Logo, falar disso é comum, o que não é comum é chamar a atenção para o ‘Lado B’ delas.

A DINÂMICA DAS EMPRESAS HOJE

Carreira x Emprego: qual você se preocupa mais?

Há uma mobilização sem precedentes da subjetividade e da flexibilidade, em um contexto em que o apoio social dos funcionários é fragilizado. Inauguramos a Era da descartabilidade.

Tal premissa se explica, sobretudo pela ambivalência, instabilidade e contradição que permeiam as práticas das organizações. O engajamento profissional das pessoas parece, assim, pôr em jogo um conjunto complexo, cheio de pressões reais e imaginárias.

Sob esse fundamento, pode-se lembrar o filme ‘Amor sem escalas’ e o personagem principal Ryan Bingham.

No filme, o personagem é um ser solitário (leve) que vive de cidade em cidade, demitindo pessoas ou fazendo palestras motivacionais sobre o quanto é importante ser ‘leve’ não levando as coisas para o lado pessoal. Ficção? Não, esse é o ambiente posto atualmente.

Então, chamo novamente a sua atenção, trabalhe, tenham um emprego, mas não se esqueça o que é importante para você: é a sua carreira. Isso mesmo, não coloque jamais sua empresa em primeiro lugar.

Primeiro a sua carreira. Você pode, por um momento, achar que eu estou dizendo para você ser displicente ou relapso com a empresa que você trabalha. Mas, não é isso. Quero chamar a sua atenção que a qualquer hora ela poderá lhe demitir, visto que ‘o seu emprego’ é na verdade dela.

Logo, ela poderá requisitá-lo a qualquer momento, deixando você ‘na mão’. Por isso, quando pensares em aprender, aumentar tuas competências e habilidades, não pense na sua empresa, pense se isso é bom para a sua carreira, para o seu currículo.

Você pode estar pensando, mas eu aprendo muitas coisas na empresa que eu trabalho. Concordo que, de um modo geral, as empresas ensinam bastante. Contudo, somente ensinam ‘aquilo’ que elas precisam, ou seja, aquilo que é aplicável ao seu local.

Essas experiências que você ‘coleciona’ ao longo da sua vida nas empresas não devem ser desprezadas. Conquanto, também não podem ser hipervalorizadas. Elas valem a pena quando ajudam a ‘construir’ teu currículo.

Mas, atenção, seu currículo deve ser muito mais do que a soma das experiências que você tem ou teve nas empresas.

PARTINDO PARA AS CONCLUSÕES

Carreira x Emprego: qual você se preocupa mais?

Nessa condição, seu emprego, está em um rolar de dados aleatórios. Vive-se os riscos, quais? Todos condicionados por essa luta. Tal qual Santiago, em ‘O velho e o mar’, na sua luta devastadora para pegar o peixe de sua vida, pode-se declarar: “Acabou”, pensou. “Pode ser que voltem a me atacar.

Mas o que é que um homem pode fazer contra eles no escuro e sem armas? […] Tubarões atacaram a carcaça, mas afastaram-se ao verificar que não lhe restava nenhuma carne”[1]. Que não sejamos Santiago, que possamos entender que o emprego não é nosso, o que ainda nos resta é a nossa carreira.

Então, não terceirize-a, não a coloque na mão da empresa que você trabalha atualmente. Seja o protagonista da sua carreira. Afinal, o protagonista do seu emprego, eu tenho certeza que nenhum de nós será. Por quê? Porque o emprego sempre é da empresa, nunca nosso. Concordas?

Nessa conjuntura, torna-se importante salientar que um trabalho não alienado (Enriquez, 2014, p. 173-174) necessita de pelo menos:

  1. Saber situar-se na organização. Saber entender sua posição, suas possibilidades reais (e não fantasiosas) de ter acesso a trabalhos interessantes, de se aperfeiçoar;
  2. Lutar contra a submissão (‘a servidão voluntária’), todos os dias ou em determinados momentos (greves), já que os superiores sempre têm tendência (ainda que não tenham consciência disso) a abusar de seu poder;
  3. Saber calcular entre o que se ganha e o que se perde a cada momento durante seu investimento no trabalho. Ser extremamente lúcido em relação a isso. O fato de calcular não esvazia a questão do sentido que se deve dar ao trabalho. Um trabalho sem sentido não passa de um trabalho alienado;
  4. Jamais ceder às tendências sacrificiais (toda organização exige de seus membros certa dose de ‘masoquismo funcional’) que se traduzem por sentimentos de culpa por parte desses membros, ou, mais frequentemente nos dias atuais, de vergonha, já que os ideais do eu da organização, interiorizados pelos funcionários, prevalecem sobre a relação com o supereu individual;
  5. Querer ser reconhecido (desejo de reconhecimento pelo outro – a luta pelo reconhecimento está no centro da vida – e reconhecimento de seu próprio desejo). Mas jamais ficar obcecado por isso;
  6. Ter condições de se questionar, de dar-se conta de sua finitude, de elucidar sua conduta, de ser estrategista relativamente aos que tentam nos manipular e também ser capaz de sublimação; e
  7. Em poucas palavras: tomar o caminho da vida e se manter nele, apesar de seu aspecto árido e árduo.

Cabe ainda, nessa perspectiva, salientar que se as organizações, em sua maioria, adotam discursos de perfeição, conclui-se que são imperfeitas, já que a perfeição não existe. O que resta então é o acaso que desarticula qualquer esperança de perfeição. O acaso é pedagógico.

Você já tinha pensado dessa forma? Você pode fazer uma reflexão sobre o estágio atual da sua carreira. Não esqueça que a sua empresa atual, você só tem o emprego, e, enquanto ela assim quiser.

Mapeie o que é importante para a sua vida e a sua carreira. Aprenda a questionar os paradigmas. O líder ‘Gestor de si’ tem a obrigação de saber construir a sua carreira. Vencer é uma questão de conhecimento e atitude empreendedora. Construa o caminho. Sucesso!!!

 

[1] Hemingway (2003) narra a estória de Santiago, um pescador, em sua luta de ‘intermináveis horas’ para fisgar o maior peixe da sua vida, no romance ‘O velho e o mar’. Ora somos Santiago, ora o peixe, mas sendo um ou outro, em um dado instante, seremos apenas carcaça.