Cultura nacional: entenda um pouco dos muitos ‘Brasis’ dentro do Brasil

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Como um líder eficaz você já deve ter percebido as nuances da cultura da sua empresa. Mas será que não faltou pensar sobe a cultura nacional? Será que você consegue ‘ler’ a sua cultura ou é ainda provinciano?

O quanto a cultura brasileira influencia no modo como se fazem as coisas na sua empesa ou vice-versa? Essas questões são fundamentais. Você líder ‘Gestor de si’ precisa dar a atenção que esse assunto merece.

Afinal, a cultura nacional é um filtro pelo qual enxergamos e interpretamos o mundo ao nosso redor. Você, líder ‘Gestor de si’ deve entender que a cultura nacional influencia nossa forma de perceber as coisas, pensar, sentir e avaliar. Ficou curioso?

Continue lendo esse artigo, ele ajudará você a reconhecer as diferenças culturais contribuindo positivamente para compreender a sua empesa. Também, contribuirá para torná-lo um líder muito mais assertivo. Então, vamos lá, entender esses muitos ‘Brasis’.

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Introdução

Cultura nacional: entenda um pouco dos muitos ‘Brasis’ dentro do Brasil

A cultura pode ser entendida quando transmitida, constituindo uma herança ou tradição social; quando apreendida e quando compartilhada. A cultura nacional indica então que as diferenças existentes estão na relação oriundas de uma dimensão comparativa, onde se torna possível observar a alteridade e os contrastes.

Prestes Motta e Caldas (1997, pp. 18-19) expressam que “um dos fatores mais importantes que diferencia a cultura de uma empresa da cultura de outra, talvez a mais importante, é a cultura nacional.

Os pressupostos básicos, os costumes, as crenças e os valores, bem como os artefatos que caracterizam a cultura de uma empresa, trazem sempre, de alguma forma, a marca de seus correspondentes na cultura nacional”.

AS MUITAS VISÕES DO MUNDO PARA ‘PENSAR’ A CULTURA

Cultura nacional: entenda um pouco dos muitos ‘Brasis’ dentro do Brasil

A ideia básica é estudar como os símbolos moldam as formas, como os atores sociais vivem, sentem e pensam o mundo. Desta forma, a cultura devia ser estudada do ponto de vista do ator.

Para mais, ela não é vista como um sistema abstrato, ordenado e baseado em princípios estruturais escondidos; antes, a sua lógica deriva da lógica de organização da ação. Pode-se concluir que, para Geertz, por exemplo, o único traço comum a todos os seres humanos seria o fato de que todos são artefatos culturais.

Diante do ponto de vista de Geertz, percebe-se claramente que diversas são as visões do mundo e que estudar as nações, sociedades e regiões pode oferecer pistas sobre seus elementos e artefatos culturais.

Para melhor entender essas diversas visões do mundo, Grondona (2002) identifica vários fatores culturais (que não são definitivos) contrastantes entre sociedades, conforme apresentado a seguir:

  1. Religião: Weber classificava as religiões em duas correntes: a ‘publicana’ (estimulam os valores que resistem ao desenvolvimento econômico) e a ‘farisaica’ (promovem os valores favoráveis). A publicana mostrou preferência pelos pobres, o que torna o desenvolvimento econômico mais difícil, porque o pobre pode justificar a sua condição, enquanto a farisaica pelos bem-sucedidos, o que gera um incentivo para todos melhorar de vida;
  2. Fé no indivíduo: para o autor, ao confiar no indivíduo, no seu poder criativo e no trabalho, a sociedade trabalha valores que estimulam os indivíduos a controlarem seus destinos. Na situação oposta, se o indivíduo acreditar que alguém é responsável pelo seu destino, pode haver perda de motivação e criatividade, o que lhe torna dependente e submisso;
  3. O imperativo moral: há três níveis de moralidade, altruístico e abnegado (o mais alto nível); o criminoso (o mais baixo que gera desrespeito à lei e aos outros); e ‘o egoísmo razoável’ (o indivíduo busca seu próprio bem-estar, porém nos limites da lei);
  4. Os conceitos de riqueza: em sociedades resistentes ao desenvolvimento, a riqueza está associada ao que existe (por exemplo, na terra), em sociedades favoráveis, ao contrário, a riqueza consiste acima de tudo no que ainda não existe (centrada nos promissores processos de inovação);
  5. As visões da competição: para as sociedades favoráveis a competição é fundamental para a sociedade como um todo, porque alimenta a democracia e o capitalismo. Enquanto, nas sociedades resistentes a competição é condenada, vista como uma agressão. Neste caso, a sociedade está impregnada por um corporativismo e por uma igualdade utópica;
  6. As noções de justiça: nas sociedades favoráveis a probabilidade de definir justiça distributiva está associada aos interesses de gerações futuras e a tendência a poupar. Nas sociedades resistentes, a preocupação da justiça distributiva está com aqueles que estão vivos e a tendência ao consumo;
  7. O valor do trabalho: nas sociedades resistentes o trabalho não é muito valorizado; enquanto nas sociedades favoráveis o trabalho é um dos pilares centrais da vida dos indivíduos;
  8. O papel da heresia: a mente indagadora é a que cria a inovação, e esta é o motor do desenvolvimento;
  9. A educação: para sociedades favoráveis a educação é o principal instrumento para a formação de indivíduos inovadores. Todavia, nas sociedades resistentes, a educação é um processo de transmissão de dogmas que produzem conformistas e seguidores;
  10. A importância da utilidade: o mundo de sociedades favoráveis refuta as teorias que não podem ser verificadas, ao passo que acontece o contrário com as sociedades resistentes;
  11. As virtudes menores: as sociedades avançadas têm estima por uma série de virtudes menores (trabalho bem executado, asseio, cortesia, pontualidade) que contribuem tanto para a eficiência como para a harmonia nas relações humanas. Enquanto nas sociedades resistentes, estas virtudes são abafadas por virtudes tradicionais (amor, coragem, magnanimidade);
  12. Foco temporal: o foco temporal das sociedades favoráveis é o futuro alcançável, enquanto nas culturas resistentes é a exaltação ao passado;
  13. Racionalidade: as sociedades favoráveis se caracterizam pela ênfase na racionalidade (somas das pequenas realizações), já as sociedades resistentes se caracterizam pelas grandes realizações oriundas dos sonhos;
  14. Autoridade: nas sociedades racionais, o poder é oriundo de um conjunto de leis. Nas sociedades resistentes, o poder está em considerar o Estado um deus irascível e imprevisível;
  15. Visão de mundo: em sociedades favoráveis o mundo é um grande campo para a ação (o indivíduo deve fazer algo para mudá-lo). Já nas nações com uma cultura resistentes, a principal preocupação das pessoas é a salvação de si mesmas;
  16. Visão de vida: para sociedades progressistas a vida acontecerá em decorrência da vontade do indivíduo, sendo ele o protagonista; enquanto para sociedades resistentes, a vida é algo que acontece;
  17. Salvação do ou no mundo: na concepção resistente, o objetivo é salvar-se a si próprio; na situação oposta; a salvação do indivíduo depende do sucesso dos esforços para transformar este mundo;
  18. Duas utopias: todas as sociedades abraçam utopias. Nas culturas progressistas, o mundo progride lentamente por meio da criatividade e do esforço individual. Nas culturas resistentes, o indivíduo busca uma utopia imediata e distante do seu alcance;
  19. A natureza do otimismo: nas sociedades resistentes, o otimista é uma pessoa que espera que a sorte, os deuses e os poderosos lhe favoreçam. Nas sociedades progressistas, o otimista é a pessoa que decide fazer o necessário para assegurar um destino satisfatório;
  20. Duas visões da democracia: para as culturas resistentes, a democracia é a herdeira do absolutismo, que não admite limites legais ou controles institucionais. Nas culturas progressistas, a democracia indica que o poder político é disperso por diferentes setores e a lei é suprema.

ENTÃO, QUAIS OS PRINCIPAIS TRAÇOS CULTURAIS DO BRASIL?

Cultura nacional: entenda um pouco dos muitos ‘Brasis’ dentro do Brasil

Barbosa (2003) interpreta que a igualdade para a sociedade brasileira possui duas dimensões, é um direito (dada pela lei) e também um fato (cuja base é um sistema moral mais abrangente).

A autora explica ainda que no Brasil os resultados, sejam positivos ou negativos não pertencem ao indivíduo, mas sim à sociedade como um todo. Percebe-se que os brasileiros se vêem atingidos na sua dignidade quando são cobrados e responsabilizados.

É comum, seja nas empresas públicas ou privadas a transferência de responsabilidade. Esse traço tem se modificado muito lentamente, e em parte por conta de mecanismos adotados em grandes organizações.

Mas de um modo geral, as distorções sociais, políticas (nepotismo e fisiologismo) e os privilégios afetam profundamente a meritocracia.

Diversos autores (Holanda, 1994; DaMatta, 1986; Barbosa, 2003) relatam algumas pistas sobre o traço, tais como: o trabalho é concebido como um castigo, exemplo dado por DaMatta, o famoso ‘batente’; ou ainda pela herança do sistema escravocrata; ou a identificação do trabalho como uma fonte secundária de identidade; ou a pouca responsabilidade sobre que eu cada um faz; dentre outros que poderiam ser apontados.

Holanda registra que a moral do culto ao trabalho no Brasil sempre pareceu repulsiva, herança dos ibéricos.

Logo, os resultados anteriormente apresentados nas duas pesquisas (Carbone e Junquilho) estão diretamente relacionados à ideia apresentada por Barbosa.

E quando analisamos a ideia de Prestes Motta, encontramos algumas pistas sobre o que paira sobre a cultura das empresas brasileiras de um modo geral, principalmente quando o autor (1997) explica que a combinação da centralização do poder, do paternalismo e da valorização da expressão emocional resulta em uma situação peculiar nos processos de gestão no Brasil, a forma como os trabalhadores são tratados nas organizações indicam, de um lado, basear-se em controles do tipo masculino, o uso da autoridade, e, de outro, em controles de tipo feminino, o uso da sedução.

Outras pesquisas que podem ajudar a entender a cultura brasileira foram desenvolvidas baseadas na Teoria dos Valores Pessoais de Schwartz e aplicadas principalmente por Tamayo e colaboradores (2005). Tamayo e Schwartz (2005) pesquisaram uma lista de valores pessoais que descrevem metas e desejos das pessoas.

Eis os principais resultados encontrados para valores característicos do Brasil, nesta pesquisa:

  1. Poder: busca de reconhecimento social (respeito e aprovação pelos outros);
  2. Realização: esperto (driblar obstáculos para conseguir o que quero);
  3. Universalismo: sonhador (ter sempre uma visão otimista do futuro); e
  4. Benevolência: trabalho (modo digno de ganhar a vida).

Outro estudo sobre os traços culturais brasileiros para analisar as organizações, foi desenvolvido por Freitas.

O autor (1997) conclui que há influência relevante da cultura nacional sobre a cultura organizacional, principalmente quando se analisa os modelos de gestão importados.

Freitas estuda as relações entre a cultura brasileira, seus traços e as organizações para tentar compreender até que ponto a importação de modelos administrativos alcançam resultados.

A figura a seguir apresenta os traços brasileiros que podem servir para uma análise organizacional:

Figura 1: Traços brasileiros para análise organizacional

Traço Características
 

Hierarquia

Herança do passado colonial e fruto do sistema escravocrata brasileiro, centrado na Casa-grande e na figura patriarcal;

Tendência à centralização do poder dentro dos grupos sociais;

Distanciamento nas relações entre diferentes grupos sociais;

Passividade e aceitação dos grupos inferiores.

Posteriormente manteve suas raízes na formação da burocracia de Estado e nas fábricas, atingindo o ambiente de trabalho atualmente.

 

Personalismo

Derivado também do Brasil Colonial, este traço privilegia não o cidadão, mas as relações por pessoas, famílias, parentes e amigos. Evidentemente marcado pela afetividade, amizade e o calor humano;

Sociedade baseada nas relações culturais;

Busca de proximidade e afeto nas relações;

Paternalismo: domínio moral e econômico.

Barbosa explica que no Brasil, ser como os demais, costuma ser encarado como uma condição de inferioridade.

Ambiguidade A ambiguidade é um traço marcante nas relações sociais no Brasil. Os estudos apontam que a ambiguidade e a maneira como foram estabelecidas as instituições no país podem ter influenciado no modo como o povo lida com regras e leis. Caldas aponta que dois comportamentos típicos exemplificam a ambiguidade: o jeitinho e o formalismo.
Malandragem O traço pode ser considerado derivado da hierarquização, das desigualdades sociais e do patriarcalismo;

Flexibilidade e adaptabilidade como meio de navegação social;

Jeitinho e as práticas sociais que procuram contornar regras e leis;

Esperteza.

Sensualismo Este traço é creditado a miscigenação portuguesa, oriundo da poligamia, da moral sexual livre e do cunhadismo dos indígenas;

Gosto pelo sensual e pelo exótico nas relações sociais.

Aventureiro Esse traço está associado ao desprezo pelo trabalho manual, inclusive o de lavrar a terra, com preferência pela caça e coleta;

Mais sonhador que disciplinado;

Gosto pela ociosidade;

Tendência à aversão ao trabalho manual ou metódico.

Miscigenação Refere-se a mistura étnica nas relações contemporâneas em que associa a sensualidade a um mito de democracia e igualdade sociais (Caldas, 2009). Essa miscigenação não é fruto da democracia étnica, mas sim do gosto pelo exótico, do apetite sexual do colono português e da sociedade extremamente hierárquica.  Caldas reforça que o preconceito enraizou-se na mentalidade do brasileiro, tanto étnica como em estatura social. O autor comenta que isto é resultado do que DaMatta (1989) cita como preconceito social não declarado.
Fontes: Adaptado de Alexandre Borges Freitas, Traços brasileiros para uma análise organizacional, p. 44, 1997; e Miguel Caldas, Culturas brasileiras: entendendo perfis culturais no plural e em mutação, pp. 66-68, 2009.

Com relação ao sensualismo, além de Freitas, Prestes Motta e Alcadipani (1999) também identificam que há uma dose de sensualismo do brasileiro nas relações pessoais, pois o mesmo pode servir como um meio de obter aquilo que deseja mais facilmente.

Outro aspecto relevante é que o sensualismo pode tornar as relações mais agradáveis e mais propícias, visto que o seduzido não se sente forçado a fazer aquilo que é solicitado, sente-se muitas vezes inclusive atraído.

Outro aspecto relevante da cultura brasileira, apontado por Freitas (1997), é o espírito aventureiro (também citado na figura 1) e a aversão ao trabalho manual.

Para Holanda (1995) e Freyre (1996) este traço está associado às raízes pré-descobrimento e as características dos povos ibéricos. Enquanto Barbosa (2001, p. 68) reconhece que, no Brasil, “trabalho duro, ascensão e enriquecimento nunca fizeram parte de qualquer trilogia com credibilidade no imaginário nacional”.

Outro ponto a ser considerado nestes traços é a análise de Prestes Motta (1997, p. 34) com relação a malandragem (também citado na figura 10), que segundo o autor, é uma palavra imprecisa e ambígua, visto que o malandro é aquele que passa por amigo, é sedutor, é aquele que bate carteira e que engana pela lábia ou por outro subterfúgio. Para o autor existe tanto malandro maltrapilho como malandro de terno e gravata.

Freitas (1997) defende que esses traços brasileiros podem ser definidos como os pressupostos básicos que cada indivíduo usa para enxergar a si mesmo como brasileiro.

Prestes Motta e Caldas (1997, p. 39) explicam que “quando nos referimos a traços brasileiros, estamos falando de características gerais que podemos dizer ser comuns ou frequentes na maioria dos brasileiros, traços neste sentido, representam aqueles pressupostos básicos que cada indivíduo usa para enxergar a si mesmo como brasileiro”.

CONCLUINDO

Cultura nacional: entenda um pouco dos muitos ‘Brasis’ dentro do Brasil

De um modo geral, as atividades organizacionais estão intimamente ligadas aos sistemas sociais, cultural, econômico. Os indivíduos também têm seus interesses e comprometimentos no ambiente social.

Organizações transnacionais são recipientes de múltiplas culturas nacionais. A cultura de uma organização com estas características aponta para uma cultura hibrida e sem fronteiras.

Os sistemas de comunicação e tecnologia de informação criam estruturas globais amplas. Diante do exposto, compreender a diversidade institucional e cultural em um ambiente cada vez mais integrado é fundamental para que as organizações possam entender a dinâmica existente no ambiente.

Com relação ao exposto, Wood Jr (1995, p. 32) registra que “desconsiderar as diferenças de culturas nacionais e regionais, em qualquer análise, significa deixar de lado toda a esfera cultural mais ampla, que condiciona a teoria e a prática administrativas.

Por outro lado, admitir a existência dessas diferenças, e compreendê-las em toda sua magnitude, possibilita discriminar se determinadas técnicas, teorias ou princípios empresariais são ou não aplicáveis à determinada realidade”.

Outro aspecto relevante é apontado por DaMatta e Barbosa, que expressam que não se deve estudar a cultura apenas de modo fragmentado, mas sim em sua dimensão total, ou seja, como um sistema. Barbosa (2009) reforça quando diz que a realidade é fluídica e fragmentada, logo, mesmo com a globalização, a disseminação de valores, estilo de vida e a cultura de negócios, as análises da cultura devem ser continuadas, visto que a padronização parece não ser uma realidade.

Wooddward (2009) enuncia que para entendermos como a identidade nacional funciona, faz-se necessário:

  1. Compreender como a identidade funciona, dividindo-as em diferentes dimensões;
  2. Perceber que a identidade envolve reivindicações sobre quem pertence e quem não pertence a um grupo;
  3. Estabelecer que a identidade está vinculada também as condições sociais e materiais;
  4. Compreender que o social e o simbólico referem-se a dois processos diferentes, mas cada um deles é necessário para a construção e a manutenção das identidades;
  5. Conseguir a conceitualização da identidade através de sistemas classificatórios;
  6. Perceber que as identidades não são unificadas, podendo haver contradições no seu interior, visto que pode haver discrepâncias entre o nível coletivo e o nível individual; e
  7. Conseguir explicar por que as pessoas assumem suas posições de identidade e se identificam com elas.

Chegando ao fim desse artigo, você líder ‘Gestor de si’ já deve ter concluído o quanto é importante para gerir com eficácia a sua empresa saber sobre a cultura do nosso país.

Bem, novos artigos sobre o tema estão disponíveis para você. Aproveite-os para se aprofundar nesse fenômeno importante para você se tornar um líder ainda mais desejado pelo ambiente corporativo.