Líder Gestor de si: seja capaz de compreender antes de agir

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Agir. A origem da palavra é do Latim AGERE, “impelir, atuar, fazer, colocar em movimento”. O mundo de hoje pede ação. Tudo aqui e agora. Nessa vida ‘AGORISTA’ da Sociedade Líquida, tudo é PRESSA.

O motivo da pressa é, em parte, o impulso de adquirir e juntar. A outra parte é agir. Contudo, gostaria de salienta, meu caro leitor, que compreender está em desuso. Sim, em desuso. O compreender se tornou uma coisa para poucos.

A maioria quer ‘bolo’ de micro-ondas. Quer o agite para usar. Tudo na velocidade estonteante da luz. Afinal, apenas poucas pessoas ainda se dão ao luxo de tentar compreender. Fala-se primeiro, depois se der tempo pensa-se.

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Você pode discordar. Mas, a tônica desse mundo é nunca desligar. Seja o celular, seja a internet. A velocidade da urgência comanda o ritmo da mudança. Nada mais do que o triunfo da superficialidade, eis a promoção do instante.

Onde, em tudo isso, pode-se procurar algum sentido de coerência? Nessa mobilidade, surge o ‘homem instante’ (Aubert, 2006). Esse ‘tipo’ reproduz o olhar do outro, a moda imposta, a tendência fabricada de modo bovinamente passiva. Esse é o tipo que age…age…age…

A celeridade e a mobilidade então transformam-se em um ‘tempo líquido’ (Bauman, 1998, 2001, 2004, 2007). Nessa perspectiva, a solidez se desfaz, o desconstrucionismo floresce dando vazão ao efêmero e ao fragmentado. Há, em tudo isso, além da projeção do porvir, um individualismo irônico e tedioso.

Assiste-se à fragmentação da fortaleza individual. O sujeito está só. Sente-se feliz em reproduzir, se espelhar no artista, no jogador, no empreendedor do ano. Age-se e fala-se pelo outro. Basta alguém dizer apontar a novidade.

Sei que de repente, você possa achar que não é bem assim. Não lhe culpo, não. Mas continue lendo esse artigo, deixe-me mostrar minha ideia sobre o agir e o compreender. Vamos lá!

INTRODUÇÃO

Líder Gestor de si: seja capaz de compreender antes de agir

Sempre, em minhas aulas ou palestras, pergunto para as pessoas: por que nós precisamos da teoria? Já que tudo nessa vida é prática, ou seja, ação. Muitos ficam me olhando, tentando adivinhar a resposta.

Poucos se manifestam. Depois de alguns instantes, digo-lhes que precisamos da teoria para questionarmos a nossa prática. Isso mesmo, compreender porque estamos agindo desta ou daquela forma.

Não lhes parece ingênuo seguir a ‘manada’. Quem fabrica a tendência? Quem dita as regras?

Devemos entender que existem múltiplas realidades a desvendar, a falar, a ouvir e a compreender. Contudo isso somente é possível quando procuramos restituir o quadro holístico.

Mas, eu novamente pergunto: como fazer isso se a impressão do momento é tudo? Ou, então, em um voo cego a opção pela farsa torna-se uma companheira?

Como compreender essas múltiplas realidades se o ‘EU ON-LINE’ condiciona a total transparência de si, o compartilhamento, a perpétua revisão ‘permanente’ e o desejo imperioso de se mostrar.

O que você acha disso? Você não acha que o indivíduo está corroído pela ansiedade, quanto mais se faz, quanto mais tempo se dedica a causa, menos tempo se tem? O reinado do presenteísmo postula a sua conta.  Diria Chico Buarque que ‘o tempo passou e ‘só Carolina não viu’.

E QUAL É A CAUSA?

Líder Gestor de si: seja capaz de compreender antes de agir

Esse não compreender, esse agir, sem pensar tem um ‘quê’ de ficção. Porém, isso está baseado em uma lógica amparada em três tipos de discurso (Ehrenberg, 1991), comuns em nosso cotidiano (mídias, jornais, revistas, programas de tv); o esportivo (não fique parado e sua gama de esportes individuais); o do consumo (viva para adquirir a moda, a novidade); e o empresarial (seja empreendedor e performático).

Sei que você pode estar achando estranho. Entendo, afinal, dizem que esporte é vida, que ser empreendedor é saudável. E digo-lhe, sim, claro que é. Mas, em parcimônia, em equilíbrio.

Quando instado em uma profusão veloz e efêmera, vence o individualismo. A ação elimina a compreensão. Nessa condição, muitos estão à deriva.

Estar à deriva causa uma tirania. A tirania da visibilidade. Que impõe ‘mostrar-se’ sem amarras, e sem pudor, desvenda-se, desnuda-se, deprava-se inconscientemente o sujeito dessubstancializado.

Contudo, cabe alertar que o visível não existe senão subentendido pelo invisível (Maffesoli, 2003). Então, estar nessa condição, reverbera um agir sem pensar, um seguir a manada sem questionar.

Sob esse conceito, os indivíduos tornam-se jogadores em busca do reconhecimento muito mais pelas aparências do que pelas qualidades.

Cabe ressaltar, como fazer boas escolhas na carreira se eu sigo a manada? Se eu busco agir antes de compreender, passo a repetir o passado, como diria Cazuza, ‘um museu de grandes novidades’.

Passo a ser o que o outro propõe. Por isso que tantas pessoas vivem dizendo: eu sempre fiz assim e sempre deu certo. Eis que um belo dia, seu mundo sucumbe, ele perde o emprego, o negócio. E, talvez, aí acorde.

Uma ironia repousa, é claro, na percepção de como a realidade zomba do indivíduo: não há um fim do caminho. E, uma vez que, ainda assim, continua em andamento e, pelo que parece, não percebe o jogo que o está dominando.

A REALIDADE FICTÍCIA OU A FICÇÃO REALISTA?

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Nessa conjuntura, o indivíduo na Contemporaneidade é um homem sem ponto-de-vista (sabe tudo, fala tudo, vive tudo, mas com medo de tudo, se mostra apenas a superfície), mas, submerso pelo acaso da contingência imediata.

Conquanto, compreende muito pouco, o seu agir, na maioria dos casos, é um reflexo do mundo ‘agorista’.

A linguagem performática da sociedade contemporânea exige que o indivíduo encene, represente, atue reverberando a ‘espetacularização’, o que causa alienação social, reinando a individualidade, mesmo quando o discurso se pretende coletivista.

Contudo, nessa condição, depreende-se que essa sociedade se tornou claramente um mundo totalmente fictício.

Nessa condição, o indivíduo define tanto a realidade quanto o seu desejo. Preso a essa dinâmica, nega os fatos, reverencia a imagem e a fantasia.

Aflora uma supervalorização da ação e da individualização que transformam o real em apenas imagens simples, que aparentemente se parecem autônomas, mas estão submissas as verdades heterônomas.

Isolado, paradoxalmente, no entanto, da compreensão do mundo que o cerca, necessita desesperadamente de uma crença, uma causa. Contudo, prevalece o significado sobre o significante.

A sua vida transformou-se então em apenas um chamado. Articula-se uma desordem enunciatória, suas eloquentes omissões e silêncios indicam uma peça fictícia.

Se o tempo cometeu suicídio, tudo então é transitório, inclusive o agora. Na anomia, buscar compulsivamente a certeza é inútil. A tríade que se abre, nessa conjunção, é: evasão – evitação – descompromisso.

É irônico, antes de tudo que esse ‘homem emancipado’ está em um mundo de diáspora. Sim, esse homem emancipado nada mais é do que o retrato dos homens dessa Era. Sujeitos presos nas armadilhas do consumo e da velocidade do descarte.

A contingência desses sujeitos como agentes é fantasiosa, nada mais do que meros fantasmas replicantes de imagens coercitivas.

Esse não-pensado, ao longo do qual esses sujeitos são articulados, apesar de contraditórios estão presos a um discurso ambivalente de projeção e introjeção, para construir uma vida de excessos, em que o único grande projeto de longo prazo é manterem seus corpos jovem, belos e impecáveis.

CHEGANDO AOS FINALMENTES

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Essa configuração condiciona o indivíduo ao crescimento como fonte de aceitação, de participação social que promete transformá-lo em protagonista. E este se entrega a uma excursão aos confins das palavras e práticas performáticas.

Indelevelmente o indivíduo está confinado a transformar sua vida em um negócio, nem que seja até o momento em que o ‘mundo’ assim desejar.

E depois? Bem, depois nada como um bom discurso sobre oportunidades em um mundo idealizado. Quanto custa? Infere-se tratar apenas e tão somente de um ‘efeito colateral’, afinal amanhã tem mais do mesmo, freguês. Alguém estará sendo consumido no seu lugar.

Nessa dinâmica, lhe convido a não apostar em um mundo de receitas fáceis. Em uma construção de carreira rápida e indolor. Pensar e compreender causa dor. Diria que a ignorância é uma dádiva de Deus.

Sabe por que? Quem não sabe pode culpar o outro. Logo, o agir sem a compreensão ‘exige’ um culpado. Mesmo que isso não resolva, acalma a ‘alma’ do vivente.  E vida segue seu curso, teimosa, intrépida até a próxima parada.

Fuja do aqui e agora. Busque estratégias de longo prazo. Esqueça o ‘Maria vai com as outras’.  Pense e compreenda cada passo para a sua carreira. Escolha com base no conhecimento, no estudo e na análise.

A autonomia só é possível com a compreensão. A compreensão gera escolhas. Bem, aí, a decisão a ser tomada é sua. Claro que sou a favor da ação! Contudo, depois da compreensão, do entendimento, das análises das possibilidades.

Ensejo um mundo de escolhas, não a tirania da ‘escolha’ totalitária. Pense em longo prazo. Mãos-a-obra, não deixe tudo na mão dos outros, no olhar dos outros. Compreenda, depois aja. Tenha Sucesso!!!